Postagens

De boas intenções, o inferno está cheio.

Hoje vai ser um daqueles dias que estarão na memória. Ter escolhido fazer Direito coloca  a gente numa série de coisas solenes, tipo essa de receber a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil. E lá se vão mil recomendações e documentos a serem trazidos antes, do traje (paletó para os homens e "vestimenta compatível com a função de advogada" para mulheres) a recomendação de não se atrasar. Acontece que acima das recomendações com que eles se preocupam tanto, existe a lei que exige acesso pleno a prédios públicos. E na OAB Seccional Bahia não há sequer uma vaga reservada, a rampa de acesso é uma de madeirite coberta (tinha que ser, né? Para parecer "bonito") de tecido. E já que nem nos dias solenes se pode deixar de lado a deficiência, fui lá recebr minha carteira que mereci e alcancei, sempre seguindo as recomenações, mas nem sempre recebendo dos que me recomendavam o respeito aos meus direitos. Já falei disso aqui antes, mas é impressionante e irritante como as p...

Mas como é isso de se sentir deficiente?

Essa semana um assunto que brota, vez ou outra, me rondou um bocado e me deixou com vontade de escrever: Como é se sentir deficiente? Quase como Gabriela de Caymmi, eu não nasci assim, mas eu cresci assim, eu sou mesmo assim e muito provavelmente, vou ser sempre assim: Pessoa com deficiência. Uso cadeira-de-rodas desde que me entendo por gente e acho que isso vocês já sabem. Eu não sei de ser de outro jeito, portanto, isso acaba sendo algo que não faz muita diferença na minha vida, psicologicamente falando. Não fico pensando "Ah, mas como seria se eu pudesse andar "como todo mundo"?", afinal, aprendi que não existe essa de "como todo mundo", tem mais gente diferente do que a gente consegue enxergar. Mas, sim, tem horas que não é nada bom ser como eu. O bicho pega, e até mesmo coisas cotidianas dão um nó na garganta. Daí essa semana, os episódios das séries que eu ando acompanhando ultimamente, coincidentemente, tocaram nesse assunto.(Um spoilerzinho leve...
Helen conseguiu vencer o engarrafamento horrível e chegar ao salão de beleza, finalmente. Mal cumprimentou a todos, envolta nos pensamentos sobre o monte de coisa que tinha para resolver durante a semana. A reunião do novo projeto da chefe, com o qual ela super discordava, mas tinha que defender com unhas e dentes frente aos investidores. Unhas que estavam horrorosas, por sinal, tinha que entrar na fila da manicure, não ia dá pra só sair dali de cabelo cortado. Helen não era daquelas que gostava de se embelezar, mas o fazia, muito bem até. Achava que era mais uma obrigação, que ela cumpria, obviamente. E aquelas revistas femininas espalhadas pelo salão? Argh. Com roupas lindíssimas, que quase nunca se acha na loja quando procuramos. Com cabelos perfeitos, que nem quando saímos dali alcançamos. Com pele que só pode ser photoshop de tão perfeita. Aliás, que coisa essa chata mais essa dúvida que surgiu sobre se há realmente pele perfeita, ou a gente pode se encher de porcaria que aquilo ...

(In) Acessibilidade Atitudinal

Sem ressentimentos ou amarguras. Eu preciso escrever para ver se ao menos mais uma pessoa reflita sobre como a maioria encara as pessoas com deficiência exercendo suas atividades diárias. Lá vai eu fazer uma radiografia na Clínica Delfin,grande centro médico de diagnóstico daqui dessas bandas. A gente já vai ficando feliz quando tem vaga reservada, porteiro atencioso e elevador. Chega na recepção, entrego o pedido, carteirinha e essas coisas. Na hora de assinar minha ficha, começa a complicar, sem motivo. A recepcionista ao lado da que tava me atendendo, sem nem levantar os olhos pra me ver, fala: - Dá para o acompanhante dela assinar. Levanto as sobrancelhas em sinal de reprovação. Minha recepcionista: - A senhora dá pra ele assinar, porfavor. Eu, já indignada: - Mas por que tem ser ele? Eu posso assinar. Ela, meio desconcertada, diz que não sabia se eu podia, se eu tinha apoio ali,e mais umas palavras que foram sumindo no fade de quem não tem o que falar e fala merda. De fat...

Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência

Hoje é um dia de luta. Hoje é mais um dia, pra quem luta um pouquinho todo dia. Não, não vistam em mim a roupa de herói, não pega bem. Nem a de coitadinho, porfavor. Hoje é o dia de pessoas, sujeitos de direito, que possuem algum tipo de deficiência e que estão aí pra fazer a vida acontecer. Não quero que o post fique longo, nem vou falar aqui como é ser deficiente nesse país. Eu quero falar como eu quero que seja. Eu quero dizer que cabe a cada um de nós dizer como deve ser sua cidade. Mais acessível, mais inclusiva, menos preconceituosa. Cabe reclamar, pedir, explicar, discordar e incentivar. Mesmo não tendo uma deficiência, todos irão ganhar quando nosso país poder acolher cada um de seus cidadãos, de maneira digna e igualitária. Acho que estamos caminhando. Mas quero passos mais firmes e rápido. Quero ter mais gente pedindo, não só por mim, mas comigo. Seja na padaria da esquina ou em repartiçõs públicas. A lei existe e está aí para ser cumprida. Mais que isso, há princípios resg...

"Mas não dá pra dar um jeitinho de levantar esse braço?"

Tava aqui linda e sossegada lendo o livro do não menos lindo Marcelo Rubens Paiva, quando me avisam de que o rapaz do condomínio e da empresa de elevadores estavam aqui pra falar comigo. Há uns dias, minha mãe comentou com o síndico de que seria bom se pudesse mudar o interruptor do elevador no meu andar e na garagem, de maneira que ficasse numa altura em que eu pudesse apertá-lo. Então, ele mandou que o rapaz da empresa responsável viesse aqui pra saber como seria e tal. Eis o belíssimo diálogo entre eu e o tal rapaz da empresa de elevadores, quando ele aqui chegou: "-Oi, boa tarde, eu entrei em contato com vocês sobre a possibilidade de baixar um pouco esse interruptor, porque do jeito que tá eu não alcanço. -Mas não alcança como? -Meu braço só levanta até essa altura- mostrei pra ele meu braço subindo só até a altura da minha cabeça,como de costume. -Mas não tem como levantar mais mesmo?" Daí vem na sua mente que a principal dificuldade de se encarar uma deficiência reside...

"Que X-Men você queria ser?"

Eu queria ser o mutante que adquirir a habilidade de esquecer. Apagar da memória exatamente aquilo que te machuca. Organizar a memória em pastas, com marcações, favoritar as melhores e mais importantes. E apagar, sem oportunidade de resgatar da lixeira o que não mais deve ser lembrado. Todos nós ficamos aqui, na espera de algo muito bom acontecer. Mas o que acontece quando se perde isso de bom que aconteceu? Fica ali, a lembrança do que você quer que volte, mas que não vai voltar. Aí, já que aquelas memórias já não servem de nada, você fica tentando achar um sentido pra elas. Brinca com elas. Fogo que são, aquecem, mas machucam. Olha elas de trás pra frente, adianta, retrocede, faz adaptações para filmes, seriados de tv e novelas. Escreve livros, compõe músicas. Acha as músicas perfeitas. Das mais mais bregas às mais bonitas. Qual a relevância? Outras histórias estão começando para outras pessoas, com outras músicas, lembranças estão sendo feitas. E as suas estão ali sem serventia. Sin...