Hoje vai ser um daqueles dias que estarão na memória. Ter escolhido fazer Direito coloca a gente numa série de coisas solenes, tipo essa de receber a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil. E lá se vão mil recomendações e documentos a serem trazidos antes, do traje (paletó para os homens e "vestimenta compatível com a função de advogada" para mulheres) a recomendação de não se atrasar.
Acontece que acima das recomendações com que eles se preocupam tanto, existe a lei que exige acesso pleno a prédios públicos. E na OAB Seccional Bahia não há sequer uma vaga reservada, a rampa de acesso é uma de madeirite coberta (tinha que ser, né? Para parecer "bonito") de tecido. E já que nem nos dias solenes se pode deixar de lado a deficiência, fui lá recebr minha carteira que mereci e alcancei, sempre seguindo as recomenações, mas nem sempre recebendo dos que me recomendavam o respeito aos meus direitos.
Já falei disso aqui antes, mas é impressionante e irritante como as pessoas insistem em tratar as pessoas com deficiência como incapazes. Ignoram o fato de, para eu estar ali, no meio daquela presepada toda, recebendo uma carteira, eu tenho uma história. Toda uma vida escolar, uma graduação, um exame de ordem não parece importar, só a cadeira naquele momento conta, para atestar se eu tenho capacidade de responder perguntas simples, feitas a minha mãe, que me acompanhava:
-"Ela vai querer tirar foto?"
-"Ela pode estacionar mais pra lá um pouquinho com a cadeira?''
-"Ela está de parabéns, viu? Conseguiu virar advogada!"
Sim, pessoal, eu ouvi isso aí. Três vezes. Três pessoas diferentes.
Daí que não é preciso se perguntar muito porque essas coisas ainda acontecem. Chego em casa, ligo a TV por acaso e um desfavor, mais comumente chamado de novela teen, Malhação, está passando. Cinco minutos são suficientes para se ouvir as piores coisas de quem, em tese, está querendo tratar do tema deficiência. Uma das personagens diz ao pai, encantada, como quem viu uma espécie rara de pássaro no zoológico, que conheceu um garoto no primeiro dia de aula "que é cego, mas nem parece, ele é tão sensível". O que ela quis dizer com isso, porfavor, caros leitores? Os cegos tem que parecer com o que, exatamente?
Na cena seguinte, uma outra personagem conta feliz da recuperação do amigo/namoradinho/qualquercoisa que é paraplégico. Pelo pouco que eu sei, já teve uma meia dúzia de personagens deficientes nessaa novelinha que, após uma temporada de muita luta e sofrimento, milagrosamente se curam. Ótimo, mas se tem mesmo essa boa intenção de tratar temas sociais, que tal chegar mais perto da realidade e ver como essas pessoas estão sendo bombardeadas com, além de todas as dificuldades inerentes à deficiência, preconceitos velados de que somos menos capazes, mas ao mesmo tempo heróis? Por que o personagem com deficiência não pode passar pelo drama de ver sua namoradinha grávida dele, sem planejamento, por exemplo?
Não entendo a moral da história nessa novela de ver os personagens com deficiência sempre tendo o mesmo fim, se milhares de jovens estão por aí passando pela mesma coisa e, pasmen: não estão se curando, apesar do sofrimento e luta, estão vivendo os dramas de ser adolescente E deficiente num país que nem os órgãos responsáveis por zelar pela observância das leis está obedecendo as leis que lhes permitiriam ir e vir. Jovens que, assim como eu, estão recebendo seus diplomas, seus salários, seus amores, suas vidas. Enquanto novelinhas, cheia de "boas intenções" em tratar temas sociais, mas sem nenhum cuidado com a realidade e o impacto que causam, perpetuam atitudes discriminatórias e as pessoas acham normal ignorar uma enorme parcela de cidadãos.
Terça-feira, Fevereiro 28, 2012
Sábado, Janeiro 21, 2012
Mas como é isso de se sentir deficiente?
Essa semana um assunto que brota, vez ou outra, me rondou um bocado e me deixou com vontade de escrever: Como é se sentir deficiente?
Quase como Gabriela de Caymmi, eu não nasci assim, mas eu cresci assim, eu sou mesmo assim e muito provavelmente, vou ser sempre assim: Pessoa com deficiência. Uso cadeira-de-rodas desde que me entendo por gente e acho que isso vocês já sabem. Eu não sei de ser de outro jeito, portanto, isso acaba sendo algo que não faz muita diferença na minha vida, psicologicamente falando. Não fico pensando "Ah, mas como seria se eu pudesse andar "como todo mundo"?", afinal, aprendi que não existe essa de "como todo mundo", tem mais gente diferente do que a gente consegue enxergar. Mas, sim, tem horas que não é nada bom ser como eu. O bicho pega, e até mesmo coisas cotidianas dão um nó na garganta.
Daí essa semana, os episódios das séries que eu ando acompanhando ultimamente, coincidentemente, tocaram nesse assunto.(Um spoilerzinho leve, não vai fazer mal, mas não custa eu avisar) Em "Glee", a personagem super espirituosa, líder de torcida, braço direito da vilã, portadora de síndrome de Down, Becky, após altas investidas para namorar Artie, é por ele dispensada e conclui, consigo mesma, ser devido a sua síndrome de down e pensa: "As vezes, é uma merda ser eu mesma." Na outra série, "Switched at Birth", o personagem surdo-mudo Emmet, é preso por vandalismo, meses após ele ter sido flagrado por câmeras de segurança pichando um outdoor que fizera como surpresa de aniversário para sua namorada não-surda, Bay. Acontece que no momento que os policiais chegaram a casa dele, jogaram o holofote em seu rosto, impedindo que ele conseguisse ver claramente os policiais para ler seus lábios e entender que o mandavam se identificar e largar a ferramenta que carregava, e assim ele foi jogado no chão e algemado, assim, impedido de se comunicar da única maneira que ele sabia: usando a Língua de Sinais. Ele confessa a uma amiga, mais tarde, que se sentiu como se afogando, que odiou ser surdo naquele momento e odiou mais ainda se sentir assim quanto a sua surdez.
E é aí que eu abraço Emmet e Becky e digo a eles que sei exatamente como eles se sentem quando não conseguem se acostumar com aquilo que eles passaram a vida mostrando, automaticamente, ser "ok". Sim, porque, para nós, passa a ser "ok" ser pessoa com deficiência. Vivemos, estudamos, trabalhamos, namoramos e tudo o mais com a deficiência a tira-colo. Não ficamos diariamente "Ih, olha eu hoje tendo que pedir ajuda para pentear meus cabelos por causa da minha deficiência". Não deixamos a deficiência de lado, quando fazemos todas essas coisas, por isso eu, pelo menos, aprendi a não odiar esse meu estado, renegando o que sou, maldizendo minha deficiência. Sou o que sou com ela, por causa dela, apesar dela, não importa.
Mas odiar se sentir deficiente acontece de vez em quando e, para mim, é mais doloroso do que qualquer dor que a deficiência possa causar. E, grande parte das vezes, advém de uma atitude errada de alguma pessoa que desrespeitou essa minha diferença, como no caso de Emmet e a truculência dos policiais, que não faziam idéia do motivo pelo qual ele se negava a obedecer a ordem de colocar a mão na cabeça. Por isso, rebato a tecla da necessidade de se agregar o que é diferente ao cotidiano das pessoas, de tornar as coisas mais fáceis, mais acessíveis. Como se já não bastasse as dificuldades inerentes à deficiência, ver algo deixando de ser acessível por pura falta de vontade, de bom senso ou de humanidade é algo que gasta a nossa energia, que poderia estar sendo poupada pra aqueles dias que não necessariamente é beleza ser quem eu sou. Não é todo dia, mas acontece.
Quase como Gabriela de Caymmi, eu não nasci assim, mas eu cresci assim, eu sou mesmo assim e muito provavelmente, vou ser sempre assim: Pessoa com deficiência. Uso cadeira-de-rodas desde que me entendo por gente e acho que isso vocês já sabem. Eu não sei de ser de outro jeito, portanto, isso acaba sendo algo que não faz muita diferença na minha vida, psicologicamente falando. Não fico pensando "Ah, mas como seria se eu pudesse andar "como todo mundo"?", afinal, aprendi que não existe essa de "como todo mundo", tem mais gente diferente do que a gente consegue enxergar. Mas, sim, tem horas que não é nada bom ser como eu. O bicho pega, e até mesmo coisas cotidianas dão um nó na garganta.
Daí essa semana, os episódios das séries que eu ando acompanhando ultimamente, coincidentemente, tocaram nesse assunto.(Um spoilerzinho leve, não vai fazer mal, mas não custa eu avisar) Em "Glee", a personagem super espirituosa, líder de torcida, braço direito da vilã, portadora de síndrome de Down, Becky, após altas investidas para namorar Artie, é por ele dispensada e conclui, consigo mesma, ser devido a sua síndrome de down e pensa: "As vezes, é uma merda ser eu mesma." Na outra série, "Switched at Birth", o personagem surdo-mudo Emmet, é preso por vandalismo, meses após ele ter sido flagrado por câmeras de segurança pichando um outdoor que fizera como surpresa de aniversário para sua namorada não-surda, Bay. Acontece que no momento que os policiais chegaram a casa dele, jogaram o holofote em seu rosto, impedindo que ele conseguisse ver claramente os policiais para ler seus lábios e entender que o mandavam se identificar e largar a ferramenta que carregava, e assim ele foi jogado no chão e algemado, assim, impedido de se comunicar da única maneira que ele sabia: usando a Língua de Sinais. Ele confessa a uma amiga, mais tarde, que se sentiu como se afogando, que odiou ser surdo naquele momento e odiou mais ainda se sentir assim quanto a sua surdez.
E é aí que eu abraço Emmet e Becky e digo a eles que sei exatamente como eles se sentem quando não conseguem se acostumar com aquilo que eles passaram a vida mostrando, automaticamente, ser "ok". Sim, porque, para nós, passa a ser "ok" ser pessoa com deficiência. Vivemos, estudamos, trabalhamos, namoramos e tudo o mais com a deficiência a tira-colo. Não ficamos diariamente "Ih, olha eu hoje tendo que pedir ajuda para pentear meus cabelos por causa da minha deficiência". Não deixamos a deficiência de lado, quando fazemos todas essas coisas, por isso eu, pelo menos, aprendi a não odiar esse meu estado, renegando o que sou, maldizendo minha deficiência. Sou o que sou com ela, por causa dela, apesar dela, não importa.
Mas odiar se sentir deficiente acontece de vez em quando e, para mim, é mais doloroso do que qualquer dor que a deficiência possa causar. E, grande parte das vezes, advém de uma atitude errada de alguma pessoa que desrespeitou essa minha diferença, como no caso de Emmet e a truculência dos policiais, que não faziam idéia do motivo pelo qual ele se negava a obedecer a ordem de colocar a mão na cabeça. Por isso, rebato a tecla da necessidade de se agregar o que é diferente ao cotidiano das pessoas, de tornar as coisas mais fáceis, mais acessíveis. Como se já não bastasse as dificuldades inerentes à deficiência, ver algo deixando de ser acessível por pura falta de vontade, de bom senso ou de humanidade é algo que gasta a nossa energia, que poderia estar sendo poupada pra aqueles dias que não necessariamente é beleza ser quem eu sou. Não é todo dia, mas acontece.
Domingo, Janeiro 15, 2012
Helen conseguiu vencer o engarrafamento horrível e chegar ao salão de beleza, finalmente. Mal cumprimentou a todos, envolta nos pensamentos sobre o monte de coisa que tinha para resolver durante a semana. A reunião do novo projeto da chefe, com o qual ela super discordava, mas tinha que defender com unhas e dentes frente aos investidores. Unhas que estavam horrorosas, por sinal, tinha que entrar na fila da manicure, não ia dá pra só sair dali de cabelo cortado.
Helen não era daquelas que gostava de se embelezar, mas o fazia, muito bem até. Achava que era mais uma obrigação, que ela cumpria, obviamente. E aquelas revistas femininas espalhadas pelo salão? Argh. Com roupas lindíssimas, que quase nunca se acha na loja quando procuramos. Com cabelos perfeitos, que nem quando saímos dali alcançamos. Com pele que só pode ser photoshop de tão perfeita. Aliás, que coisa essa chata mais essa dúvida que surgiu sobre se há realmente pele perfeita, ou a gente pode se encher de porcaria que aquilo ali só se alcança em revista.
Chata, chata. Helen estava chata e o mundo, pra ela, pior.
As mulheres lindas da revista pareciam felizes, e uma psicóloga em uma das colunas dizia que era para ela - sim, ela sentiu a indireta - se desligar mais das coisas, relaxar, não deixar a ansiedade tomar conta, que o coração feminino é frágil e que pode acontecer o pior. Helen sentiu uma dor no peito e apertou o celular no colo. Como se fosse uma mão. Era seu elo com o mundo. Era assim que mais falava com os filhos, a mãe e lia sms das amigas confirmando um certo chá de cozinha. Como Helen podia resolver todos os problemas, tanta gente dependia e gostava dela, e não ficar ansiosa? E mais, ficar serena, continuar eficiente, e se manter linda, como as moças da revista. Ia abrir mão de ser bonita hoje, pronto. Sentiu uma culpa, o que o marido dela ia pensar, como a veriam na reunião? Ouviu Deise chamar.
Deise, a manicure. Helen a achou linda. Uma das mulheres mais lindas que já havia visto. Sorriso sincero, estendia a mão para Helen começar o procedimento. Gordinha, nenhum daqueles modelos da revista caberia nela. Nem se ela pudesse comprar. Não a gordinha estilo Adele, tão na moda atualmente. Negra. Cabelos presos. Covinha nas bochechas. Helen sentiu um alívio ao ver Deise e a achar mais bonita que a garota da capa da revista.
Esse post estava guardado aqui em meio aos rascunhos. Está sem terminar, mas publiquei assim mesmo pra sair do marasmo.
Helen não era daquelas que gostava de se embelezar, mas o fazia, muito bem até. Achava que era mais uma obrigação, que ela cumpria, obviamente. E aquelas revistas femininas espalhadas pelo salão? Argh. Com roupas lindíssimas, que quase nunca se acha na loja quando procuramos. Com cabelos perfeitos, que nem quando saímos dali alcançamos. Com pele que só pode ser photoshop de tão perfeita. Aliás, que coisa essa chata mais essa dúvida que surgiu sobre se há realmente pele perfeita, ou a gente pode se encher de porcaria que aquilo ali só se alcança em revista.
Chata, chata. Helen estava chata e o mundo, pra ela, pior.
As mulheres lindas da revista pareciam felizes, e uma psicóloga em uma das colunas dizia que era para ela - sim, ela sentiu a indireta - se desligar mais das coisas, relaxar, não deixar a ansiedade tomar conta, que o coração feminino é frágil e que pode acontecer o pior. Helen sentiu uma dor no peito e apertou o celular no colo. Como se fosse uma mão. Era seu elo com o mundo. Era assim que mais falava com os filhos, a mãe e lia sms das amigas confirmando um certo chá de cozinha. Como Helen podia resolver todos os problemas, tanta gente dependia e gostava dela, e não ficar ansiosa? E mais, ficar serena, continuar eficiente, e se manter linda, como as moças da revista. Ia abrir mão de ser bonita hoje, pronto. Sentiu uma culpa, o que o marido dela ia pensar, como a veriam na reunião? Ouviu Deise chamar.
Deise, a manicure. Helen a achou linda. Uma das mulheres mais lindas que já havia visto. Sorriso sincero, estendia a mão para Helen começar o procedimento. Gordinha, nenhum daqueles modelos da revista caberia nela. Nem se ela pudesse comprar. Não a gordinha estilo Adele, tão na moda atualmente. Negra. Cabelos presos. Covinha nas bochechas. Helen sentiu um alívio ao ver Deise e a achar mais bonita que a garota da capa da revista.
Esse post estava guardado aqui em meio aos rascunhos. Está sem terminar, mas publiquei assim mesmo pra sair do marasmo.
Segunda-feira, Novembro 07, 2011
(In) Acessibilidade Atitudinal
Sem ressentimentos ou amarguras. Eu preciso escrever para ver se ao menos mais uma pessoa reflita sobre como a maioria encara as pessoas com deficiência exercendo suas atividades diárias.
Lá vai eu fazer uma radiografia na Clínica Delfin,grande centro médico de diagnóstico daqui dessas bandas.
A gente já vai ficando feliz quando tem vaga reservada, porteiro atencioso e elevador. Chega na recepção, entrego o pedido, carteirinha e essas coisas. Na hora de assinar minha ficha, começa a complicar, sem motivo. A recepcionista ao lado da que tava me atendendo, sem nem levantar os olhos pra me ver, fala:
- Dá para o acompanhante dela assinar.
Levanto as sobrancelhas em sinal de reprovação. Minha recepcionista:
- A senhora dá pra ele assinar, porfavor.
Eu, já indignada:
- Mas por que tem ser ele? Eu posso assinar.
Ela, meio desconcertada, diz que não sabia se eu podia, se eu tinha apoio ali,e mais umas palavras que foram sumindo no fade de quem não tem o que falar e fala merda.
De fato, eu não tinha apoio e ela podia ter me oferecido um, mas já não conto tanto assim com gentilezas. Antes disso, o balcão podia ter uma altura adequada, conforme a Norma da ABNT, de maneira que eu não precisasse me esticar para vê-la e teria um lugar para apoiar as fichas. Ainda assim, eu podia assinar. Sei dar meus jeitos, as vezes.
Fora o aspecto físico, podia ter mais bom senso. Chato isso de ela partir do pressuposto que eu não podia/não conseguia assinar. Chato e desnecessário, ela podia ter perguntado. Parece bobagem pra quem está de fora, mas essa dúvida constante que as pessoas tem sobre a capacidade das pessoas com deficiência é algo bem irritante. Principalmente quando você, apesar desse tipo de atitude e da falta de acessibilidade, continua vivendo a vida por aí, pouco se importando se as pessoas vão achar você capaz ou não.
Deixa que eu decido o que eu posso fazer ou não da próxima vez. Principalmente depois de perceber que posso falar sozinha. É, falo muito, nem vem com essa de que não sabia se eu podia falar.
Lá vai eu fazer uma radiografia na Clínica Delfin,grande centro médico de diagnóstico daqui dessas bandas.
A gente já vai ficando feliz quando tem vaga reservada, porteiro atencioso e elevador. Chega na recepção, entrego o pedido, carteirinha e essas coisas. Na hora de assinar minha ficha, começa a complicar, sem motivo. A recepcionista ao lado da que tava me atendendo, sem nem levantar os olhos pra me ver, fala:
- Dá para o acompanhante dela assinar.
Levanto as sobrancelhas em sinal de reprovação. Minha recepcionista:
- A senhora dá pra ele assinar, porfavor.
Eu, já indignada:
- Mas por que tem ser ele? Eu posso assinar.
Ela, meio desconcertada, diz que não sabia se eu podia, se eu tinha apoio ali,e mais umas palavras que foram sumindo no fade de quem não tem o que falar e fala merda.
De fato, eu não tinha apoio e ela podia ter me oferecido um, mas já não conto tanto assim com gentilezas. Antes disso, o balcão podia ter uma altura adequada, conforme a Norma da ABNT, de maneira que eu não precisasse me esticar para vê-la e teria um lugar para apoiar as fichas. Ainda assim, eu podia assinar. Sei dar meus jeitos, as vezes.
Fora o aspecto físico, podia ter mais bom senso. Chato isso de ela partir do pressuposto que eu não podia/não conseguia assinar. Chato e desnecessário, ela podia ter perguntado. Parece bobagem pra quem está de fora, mas essa dúvida constante que as pessoas tem sobre a capacidade das pessoas com deficiência é algo bem irritante. Principalmente quando você, apesar desse tipo de atitude e da falta de acessibilidade, continua vivendo a vida por aí, pouco se importando se as pessoas vão achar você capaz ou não.
Deixa que eu decido o que eu posso fazer ou não da próxima vez. Principalmente depois de perceber que posso falar sozinha. É, falo muito, nem vem com essa de que não sabia se eu podia falar.
Quarta-feira, Setembro 21, 2011
Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência
Hoje é um dia de luta. Hoje é mais um dia, pra quem luta um pouquinho todo dia. Não, não vistam em mim a roupa de herói, não pega bem. Nem a de coitadinho, porfavor. Hoje é o dia de pessoas, sujeitos de direito, que possuem algum tipo de deficiência e que estão aí pra fazer a vida acontecer.
Não quero que o post fique longo, nem vou falar aqui como é ser deficiente nesse país. Eu quero falar como eu quero que seja. Eu quero dizer que cabe a cada um de nós dizer como deve ser sua cidade. Mais acessível, mais inclusiva, menos preconceituosa. Cabe reclamar, pedir, explicar, discordar e incentivar. Mesmo não tendo uma deficiência, todos irão ganhar quando nosso país poder acolher cada um de seus cidadãos, de maneira digna e igualitária.
Acho que estamos caminhando. Mas quero passos mais firmes e rápido. Quero ter mais gente pedindo, não só por mim, mas comigo. Seja na padaria da esquina ou em repartiçõs públicas. A lei existe e está aí para ser cumprida. Mais que isso, há princípios resguardando a necessidade de tornar as pessoas seres mais livres e felizes.
Mais do que um dia de luta, quero que seja um dia de comemorar tudo o que já foi feito, e a força de tudo que ainda está por vir. Não será fácil, a gente já sabe. Facilidade nunca foi a nossa praia, mesmo. Mas, como sempre, a gente consegue.
Não quero que o post fique longo, nem vou falar aqui como é ser deficiente nesse país. Eu quero falar como eu quero que seja. Eu quero dizer que cabe a cada um de nós dizer como deve ser sua cidade. Mais acessível, mais inclusiva, menos preconceituosa. Cabe reclamar, pedir, explicar, discordar e incentivar. Mesmo não tendo uma deficiência, todos irão ganhar quando nosso país poder acolher cada um de seus cidadãos, de maneira digna e igualitária.
Acho que estamos caminhando. Mas quero passos mais firmes e rápido. Quero ter mais gente pedindo, não só por mim, mas comigo. Seja na padaria da esquina ou em repartiçõs públicas. A lei existe e está aí para ser cumprida. Mais que isso, há princípios resguardando a necessidade de tornar as pessoas seres mais livres e felizes.
Mais do que um dia de luta, quero que seja um dia de comemorar tudo o que já foi feito, e a força de tudo que ainda está por vir. Não será fácil, a gente já sabe. Facilidade nunca foi a nossa praia, mesmo. Mas, como sempre, a gente consegue.
Quinta-feira, Setembro 08, 2011
"Mas não dá pra dar um jeitinho de levantar esse braço?"
Tava aqui linda e sossegada lendo o livro do não menos lindo Marcelo Rubens Paiva, quando me avisam de que o rapaz do condomínio e da empresa de elevadores estavam aqui pra falar comigo.
Há uns dias, minha mãe comentou com o síndico de que seria bom se pudesse mudar o interruptor do elevador no meu andar e na garagem, de maneira que ficasse numa altura em que eu pudesse apertá-lo.
Então, ele mandou que o rapaz da empresa responsável viesse aqui pra saber como seria e tal. Eis o belíssimo diálogo entre eu e o tal rapaz da empresa de elevadores, quando ele aqui chegou:
"-Oi, boa tarde, eu entrei em contato com vocês sobre a possibilidade de baixar um pouco esse interruptor, porque do jeito que tá eu não alcanço.
-Mas não alcança como?
-Meu braço só levanta até essa altura- mostrei pra ele meu braço subindo só até a altura da minha cabeça,como de costume.
-Mas não tem como levantar mais mesmo?"
Daí vem na sua mente que a principal dificuldade de se encarar uma deficiência reside na babaquice das pessoas. Tá, meu corpo me boicotou nessa, sou assim fraquinha, mas eu tô aqui vivendo e desempenhando bem as atividades que a mim foram reservadas. E você, que apesar de que apesar de gozar plenamente de suas faculdades físicas e mentais, vem com uma pergunta imbecil desse tipo?
Se eu conseguisse levantar meu braço mais do que essa altura, não só eu seria capaz de apertar o botão do elevador, meu senhor, mas também de dar com a mão na sua cara, pra ver se você passa por uma experiência esclarecedora do quanto sua pergunta foi idiota.
Continuando a conversa, tendo em vista a impossibilidade de se incinerar uma pessoa com a força da mente, ele disse:
"-Olha, pode ser um pouco complicado, vai ter que quebrar parede e tal.
-Isso eu sei, mas não tenho culpa que o interruptor tá fora da norma. É só meu andar e a garagem que precisa ser modificado.
-Você podia usar uma varetinha de metal para alcançar."
Pausa. Desisto de conversar e de escrever. Vocês já devem imaginar que eu materializei a tal varinha de metal sendo enfiada no olho dele, para não dizer outra parte do corpo.
Há uns dias, minha mãe comentou com o síndico de que seria bom se pudesse mudar o interruptor do elevador no meu andar e na garagem, de maneira que ficasse numa altura em que eu pudesse apertá-lo.
Então, ele mandou que o rapaz da empresa responsável viesse aqui pra saber como seria e tal. Eis o belíssimo diálogo entre eu e o tal rapaz da empresa de elevadores, quando ele aqui chegou:
"-Oi, boa tarde, eu entrei em contato com vocês sobre a possibilidade de baixar um pouco esse interruptor, porque do jeito que tá eu não alcanço.
-Mas não alcança como?
-Meu braço só levanta até essa altura- mostrei pra ele meu braço subindo só até a altura da minha cabeça,como de costume.
-Mas não tem como levantar mais mesmo?"
Daí vem na sua mente que a principal dificuldade de se encarar uma deficiência reside na babaquice das pessoas. Tá, meu corpo me boicotou nessa, sou assim fraquinha, mas eu tô aqui vivendo e desempenhando bem as atividades que a mim foram reservadas. E você, que apesar de que apesar de gozar plenamente de suas faculdades físicas e mentais, vem com uma pergunta imbecil desse tipo?
Se eu conseguisse levantar meu braço mais do que essa altura, não só eu seria capaz de apertar o botão do elevador, meu senhor, mas também de dar com a mão na sua cara, pra ver se você passa por uma experiência esclarecedora do quanto sua pergunta foi idiota.
Continuando a conversa, tendo em vista a impossibilidade de se incinerar uma pessoa com a força da mente, ele disse:
"-Olha, pode ser um pouco complicado, vai ter que quebrar parede e tal.
-Isso eu sei, mas não tenho culpa que o interruptor tá fora da norma. É só meu andar e a garagem que precisa ser modificado.
-Você podia usar uma varetinha de metal para alcançar."
Pausa. Desisto de conversar e de escrever. Vocês já devem imaginar que eu materializei a tal varinha de metal sendo enfiada no olho dele, para não dizer outra parte do corpo.
Sexta-feira, Agosto 05, 2011
"Que X-Men você queria ser?"
Eu queria ser o mutante que adquirir a habilidade de esquecer. Apagar da memória exatamente aquilo que te machuca. Organizar a memória em pastas, com marcações, favoritar as melhores e mais importantes. E apagar, sem oportunidade de resgatar da lixeira o que não mais deve ser lembrado.
Todos nós ficamos aqui, na espera de algo muito bom acontecer. Mas o que acontece quando se perde isso de bom que aconteceu? Fica ali, a lembrança do que você quer que volte, mas que não vai voltar. Aí, já que aquelas memórias já não servem de nada, você fica tentando achar um sentido pra elas. Brinca com elas. Fogo que são, aquecem, mas machucam. Olha elas de trás pra frente, adianta, retrocede, faz adaptações para filmes, seriados de tv e novelas. Escreve livros, compõe músicas. Acha as músicas perfeitas. Das mais mais bregas às mais bonitas.
Qual a relevância? Outras histórias estão começando para outras pessoas, com outras músicas, lembranças estão sendo feitas. E as suas estão ali sem serventia. Sinceramente, seria justo com aqueles que sofrem de saudade, poder desligar a memória só de vez em quando, num propósito até de economizar energia, por que não dizer.
O x-men que conseguisse isso seria o mais forte e feliz. Ou será que o frágil poeta conseguiu esquecer depois que fez aquela música?
Todos nós ficamos aqui, na espera de algo muito bom acontecer. Mas o que acontece quando se perde isso de bom que aconteceu? Fica ali, a lembrança do que você quer que volte, mas que não vai voltar. Aí, já que aquelas memórias já não servem de nada, você fica tentando achar um sentido pra elas. Brinca com elas. Fogo que são, aquecem, mas machucam. Olha elas de trás pra frente, adianta, retrocede, faz adaptações para filmes, seriados de tv e novelas. Escreve livros, compõe músicas. Acha as músicas perfeitas. Das mais mais bregas às mais bonitas.
Qual a relevância? Outras histórias estão começando para outras pessoas, com outras músicas, lembranças estão sendo feitas. E as suas estão ali sem serventia. Sinceramente, seria justo com aqueles que sofrem de saudade, poder desligar a memória só de vez em quando, num propósito até de economizar energia, por que não dizer.
O x-men que conseguisse isso seria o mais forte e feliz. Ou será que o frágil poeta conseguiu esquecer depois que fez aquela música?
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