quarta-feira, janeiro 27, 2016

Srta. Celofane


Os últimos dias tem sido agradavelmente agitados. Tenho sido produtiva não só com coisas para mim, mas também ajudando os outros. Esse carnaval encostado em janeiro me fez ter que correr, mas não de uma forma ruim. Meu estágio como mediadora, meu trabalho como psicoterapeuta, minhas aulas como aluna de psicologia e um programa de extensão sobre acessibilidade fluindo como esperado. Fora umas bobagens pendentes.
Uma das pendências foi meu passaporte, vencido há meses. Reúno documentos, pago GRU, agendo tudo. Para mim e para minha mãe. Eis que chega o dia e logo na entrada, na hora da recepcionista do SAC (Serviço de Atendimento ao Cidadão) checar meus  documentos para me mandar pro posto da Polícia Federal, eu tomo uma daquelas tijoladas disfarçadas de micro ofensa.
Eu em frente ao balcão, passei os documentos para ela, que olha para minha mãe e pergunta, apontando para mim:
-Quantos anos ela tem?
Acho difícil alguém não entender o quanto eu me senti ofendida aí, invisível, transparente feito papel celofane, mas vou explicar. Afinal, muitas vezes quando não dói na pele, distinguir ofensa dolosa de "não fiz por mal, me desculpe" é complicado. Por exemplo, uma pessoa que não precisa escolher a roupa que vai vestir na rua, para evitar ser assediada também tem dificuldade de entender que ouvir palavras obscenas de um estranho na rua não é cantada.
Eu já contei, nesse blog inclusive( aqui e de novo), como as pessoas me tratam como se eu não pudesse falar por mim mesma, por eu ter uma deficiência. Já aconteceu de recepcionista de clínica entregar minha ficha pra um estranho só porque ele tava sentado do meu lado e ela ACHOU que ele era meu acompanhante, afinal, eu não posso estar ali vivendo minha vida sozinha. Para a moça do SAC, eu não podia responder a minha idade. Ela não quis ter o cuidado de me olhar, talvez porque seja muito ofensiva minha presença diversa e perguntar algo que você pergunta a qualquer criança que você veja que já fala algo além de um "gugu dá dá".
Porque o mundo prefere supor que eu não posso falar sobre mim. E olha que eu posso dizer que tenho o privilégio da semelhança (muito bem dito por Fatine, no seu blog disbuga), não há nada que me faça parecer muito nova ou incapaz de falar por mim mesma, nenhuma deformidade importante, nenhum impedimento aparente, como uma traqueostomia, por exemplo. (Ainda que fosse esse o caso, não é assim que se aborda). As pessoas simplesmente supõem minha incapacidade, ainda que eu passe o dia dando provas do que eu posso fazer. Você imagine o que passa todos as pessoas com deficiência que tem alguma lesão que modifique a fala, que tenha um tamanho pequeno ou se utilize de alguma tecnologia assistiva para se comunicar?  Quantas dessas pessoas são diariamente silenciadas?
Eu vivo de lá pra cá, cuidando de pendências minha casa, de minha família, vendo meus amigos, indo para minha segunda faculdade, meu trabalho e porque não dizer, cuidando para que o mundo veja mais gente como eu por aí, ainda sou vista como um objeto estático incapaz de sequer se incomodar com alguém me ignorando. Imagine todos as pessoas com deficiência que estão por aí, sendo impedidas de sair de suas casas pela falta de acesso nas calçadas e transporte públicas, o quanto ficam invisíveis.
Ainda que na hora dê vontade de dar aquele barraco, bata o arrependimento por não ter feito e posteriormente tenha vontade de sumir para um lugar em que eu não precise mais passar por isso, eu venho aqui expor minha ferida.
Apenas porque, enquanto me silenciam de maneira tão mascarada, eu ainda tenho voz.
Vale finalizar dizendo que a moça não gostou muito da cara de espanto que fiz quando a indaguei:
- Você tá falando comigo? Porque eu tenho 28 anos. Você achou que eu tinha menos?
Afinal, que exagero meu se ofender, né? Ela não fez por mal, mulheres de 28 sem deficiência devem chegar lá e ouvir o mesmo tipo de pergunta sempre.
ENTÃO TÁ.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Não podia me furtar de escrever sobre o ano, nesse último dia. Sou dada a retrospectivas e resoluções, a maioria, fica perdida num rascunho de email qualquer.
Mas se eu prometi voltar ao blog, talvez seja salutar esse momento para fazer um contato com o que sou através das palavras.
No fim do ano passado eu tinha pouquissíma esperança de um ano melhor. E acho que 2015 não foi de todo ruim. Criei uma proximidade maior comigo, em diversos aspectos.
O mais aparente deles, meu cabelo. Eu escrevi e sofri um processo de transição, entre o cabelo cacheado e o liso. Não foi fácil, mas foi uma bela metáfora para vida. Cachear-se é um processo de gostar de si mesmo, implica em ter muita verdade com o que se é, coragem para cortar o que não por muito tempo consideramos ser nosso(o cabelo e as ideias), mas não cabe mais. Blindagem à críticas, mas sem desmerecer a palavra do outro, que chega indicando um produto ou uma nova forma de fazer aquilo que, pensava-se, fazia bem.
E esperar. Ter muita paciência e confiar que nós também temos dentro de nós algo capaz de crescer e se afirmar, só basta dar a devida importância. Estar ciente de que nada acontece de forma esperada, no entanto. E bate vento, e muda clima e as vezes nos amarguramos pelas decisões tomadas. Mas que são nossas, no final de tudo. E com as quais caminharemos daqui para frente.
Para gostar de minha vida eu não posso deixar que ela tome qualquer rumo, sem nenhum cuidado. Nem preciso esquentar, apertar, esticar para que ela caiba num molde que não é nosso.
Eu espero que em 2016 eu esteja me amando da mesma forma que hoje, não um amor cego, iludido. Um amor revigorante, do cuidado com o que precisa do cuidado, o deixar ir o que não é meu para que volte quando desejar.
E que eu possa, enfim, estar mais esperançosa. Não é o que acontece hoje, para isso, é preciso que o externo me acompanhe, não quero lutar eternamente só, confiando tão somente em mim, pois não sou heroína. Não depende só de mim, não depende só do outro.
Não fecho bem esse texto porque não tem exatamente uma função. Era só mais uma das promessas recebendo o seu tanto de atenção.
(Agradecimento especial a Nana Gadelha- fotógrafa e amiga- que fez um ensaio lindo de mim, de onde eu tirei a foto abaixo)

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Muitos de vocês não devem ter contato com a sensação de ser café com leite desde a infância, quando seus irmãos mais velhos diziam que você não podia ser pego na brincadeira de pega-pega. E tem dias que até deseja que seu chefe passe pela sua mesa e deixe aquela caralhada de papel na mesa ao lado, ao fitar seus olhos cansados, "hoje você não vai precisar entregar os relatórios, você é café com leite".
Porém se isso acontecesse todos os dias da sua vida, se seu chefe passasse por você e não te achasse capaz pelo trabalho, ou se você não pudesse brincar como os outros, você ia gostar?
Pois é assim que eu me sinto, quando vejo a maioria lidando com minha deficiência. Se eu te contasse a quantidade de vezes que alguém se ofendeu e puniu meu amigo por algo que eu, que fiz exatamente a mesma ação, não recebi nenhuma punição você no primeiro momento poderia dizer "olha que sortuda". Mas a sorte vira o revés de ser posto sempre em segundo plano, na reserva, no gol.
Esse ano eu vi uma amiga ser achincalhada por ser exatamente como eu sou, talvez eu inclusive seja pior, mas eu não recebi um muchocho sequer, um olhar frio. Porque brigar com a defiça não pode. Tadinha, passa tanta coisa na vida, ela tem seus motivos pra ser fdp. É antiético brigar com um ser humano tão digno de minha pena.
"Ai mila, tem nada a ver isso, é que cada um é cada um, vai que ela não quis brigar com vc pela pessoa que vc é". Pode ser, mas vem pro lado de cá ver com que frequência isso acontece e depois a gente conversa.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Do tempo, da transição capilar, e do que sou.

"Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo"
Mas Mila é só um cabelo, diria alguns sobre minha transição de cabelos quimicamente alisados para os cachos. Não é. É voltar à adolescência e à época que eu não tinha noção de minha beleza, que eu mal tinha espelho, que eu não sabia me admirar. E amarra o cabelo, e esconde que ele "não é bom", e alisa com x, y e z. Reiterando que eu dependo do outro pra penteá-los e que eu preciso que as pessoas entendam o que eu quero e que nem sempre isso é possível. E que a transição, para quem não sabe, é basicamente esperar, muito, o cabelo natural crescer e ir retirando o antigo. Darei conta? Sendo essa decisão sobre cabelo só uma das coisas que vem aparecendo de outras épocas, para me testar.
A pergunta é: no que Mila de agora se assemelha com a de lá de trás e no que se diferencia? Porque se optou pelo caminho reverso é porque quer, no fundo, desconstruir e encontrar o que de lá de trás prende e chama, respectivamente. Pode parecer só um cabelo, as meninas cacheadas sabem que não é, mas além do que tem em comum com todas as outras que resolvem não mais alisar, tem o que é meu e essa reunião de fantasmas do natal passado que se enfileiram na minha porta querendo entrar.  De tudo, nascem perguntas tão incômodas quanto revigorantes: "Para que mesmo me serviram todos esses anos? O que mesmo me fez mais forte, para além do que dizem, reiteradamente, que sou? O que é necessário não temer repetir, posto que é morto? E o que ainda vive, não sem razão? O que de mim pode ser entregue ao acaso, que eu dou conta, que o tempo me entregou as ferramentas para lidar, não sem luta?"
Nenhuma das respostas, ainda. Só o tempo (engole seco) dirá.
( No vídeo, Bethania, seus cabelos tão cheios de significado, cantando Caetano e recitando Vinícius para me ajudar a digerir)

quarta-feira, junho 19, 2013

Acontece tanta coisa em minha vida e, ainda assim, eu não aprendo. Não aprendo que não dá pra achar a posição perfeita, mais confortável, esperar o momento ideal para tal coisa acontecer.
Minha coluna, belo exemplo, nem depois de eu ter passado por uma cirurgia de 13 horas, ela ainda não é retinha, mas olha, tá me dando um orgulho danado. Antes era bem torta. E foi se entortando mais enquanto eu buscava coragem para operar, e ia empurrando com a barriga e a curvatura só crescia. E o mais engraçado é que não é fácil a espera, não é ficar na zona de conforto. É sofrer com um aparelho que mais parecia tortura medieval. E, ainda assim, ter dificuldade de se mexer.
E agora cá estou, de coluna mais certa, porém ainda torta. Mais torta do que um tortinha. Mas eu fiz o que eu podia. E é esse sentimento, de ter feito o que eu podia, que eu quero sentir. Em tudo. Sobre todos.

terça-feira, outubro 23, 2012

Fôlego

Uma felicidade inquietante. Como se estivesse numa bicicleta e recebesse aquele empurrão pra seguir e o aviso: "Vai, que se parar, cai". O medo se espalha uniforme pelo corpo e alcança o equilíbrio. Não é fácil e a queda, se sabe, pode ser bem feia.
Mas vamos, porque não saber andar de bicicleta já doeu demais. Adiar planos, agradar apenas aos outros, se agarrar a idéia de que não se consegue fazer algo está ficando absolutamente impossível nesses meus 25 anos.
Não é hora de alardear, anunciar, vibrar. Ainda. É apenas de absorver e se absolver. Perdoar-se e abraçar-se. Preocupar-se, afinal, estamos falando de mim. Mas sem desperdícios.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Orgulho Paralímpico

"Apesar de você, amanhã há de ser outro dia." Não foi essa trilha brasileira que embalou a festa de encerramento das Paralímpiadas de Londres, mas podia ter sido. Mesmo com toda falta de acessibilidade, respeito e reconhecimento ao valor das pessoas com deficiência que encaramos no Brasil, os para-atletas deram um show. A meta de alcançar o sétimo lugar no quadro de medalhas foi alcançado, superando um bocado o desempenho dos atletas olímpicos.  43 medalhas, sendo 21 de ouro, 14 de prata e 8 de bronze contra 17 medalhas nas Olimpíadas e um 22º lugar no quadro de medalhas.
Comparar é chato, mas para mim é inevitável, desculpa. Afinal, no que diz respeito às qualidades inerentes a um bom atleta, os para-atletas são semelhantes aos demais. Muito treino, garra, determinação, esforço e nem tanto reconhecimento. Em terra de endeusamento de "Neymares" quantos atletas olímpicos se vê estampados em campanhas publicitárias? E paralímpicos? 
Numa nação em que estamos, a todo momento, nos diminuindo, nos envergonhando de nossas escolhas e representantes, por que não investir na beleza daqueles que, enfrentando todas as dificuldades que é ser pessoa com deficiência no Brasil, honram seu país? As paralimpíadas terminaram e já já grande parte das pessoas se esquece desses feitos tão admiráveis. O modelo de normalidade se impõe e não veremos nossos atletas em comerciais, entrevistas, campanhas. Como se eles, por serem diferentes, não fossem capazes de nos representar, ainda que as qualidades que eles demonstraram sejam justamente aquelas que o país está precisando para se sentir um pouco melhor ao se olhar no espelho: perseverança, ousadia, determinação e competência. 
Espero muito que nossas crianças entrem em contato com esses exemplos, podendo se espelhar neles, até mesmo como uma forma de trazer à tona a necessidade de se respeitar e enxergar como igual cidadão, com seus direitos e deveres.  Aprender a olhar de perto e bem mais frequentemente estes grandes homens e mulheres com deficiência, que não estão cobertos de ouro nem estão debaixo dos holofotes do mundo, mas tem trazido para nós muito mais alegrias e um sentimento que pode, sim, dar certo.

terça-feira, setembro 04, 2012

O tortuoso Caminho

Eu pretendo fazer uma série de posts sobre minha escoliose. 15 anos com ela, já vivi de tudo. Agora, depois de muito relutar, temer, pensar, resolvi operar. Estou me martirizando por ter demorado tanto, mas acho que a vida coloca mesmo a gente pra fazer cada coisa a seu tempo.
Como só poderei fazer minha cirurgia em dezembro, controlarei minha ansiedade dividindo com vocês tudo o que eu já passei com minha escoliose e minha preparação pro grande dia. Mas, meu blog continuará a ter outras coisas também, retomarei esse cantinho que já fez tanto por mim.
Atualmente, minha escoliose tá braba. 89º, segundo raio-x recente, o que é horrível e só dará pra consertar até uns 50º. Daí, vocês se perguntam por que diabos eu deixei chegar nesse estágio. Explico um pouco nesse primeiro post. Um pouco mesmo, porque nem eu entendi até hoje o motivo.

Desde 1997, aos 10 anos, fui diagnosticada com escoliose, algo bem comum para quem passa o dia na cadeira-de-rodas, como eu. Daí, durante o estirão da adolescência, ela surgiu, logo pesada. Minha coluna entortou muito e rápido, parte pro ortopedista já.
De cara, não curti. O médico, experiente, que já havia tratado muita gente da minha família, não foi nem um pouco gentil. Disse que minha escoliose era grave, que eu devia usar aparelho, mas que não ia adiantar, que o certo mesmo era fazer uma cirurgia.
- Mas como é essa cirurgia, doutor? - perguntei, no alto dos meus 10 anos de idade, achando que devia saber.
- É uma cirurgia complicada, dolorosa, pós-operatório ruim, de mais de um mês internada, sob tração, com gesso. Há também um risco grande de infecção, fora o risco de lesão durante o procedimento. O risco de morte, claro, nem se fala.
- Mas e resolve?
- Não tem como saber o quanto. Pode ser que sim, pode ser que você tenha que fazer a cirurgia novamente, pode ser que seu quadro evolua, pode ser que tenha que usar aparelho o resto da vida.
- Tá.
Saí de lá apavorada, mesmo com todo esforço de meus pais para me tranquilizar. Afinal, nunca havia feito uma cirurgia antes, e a abordagem do médico fora a pior possível. Decidi que não faria a cirurgia, que tentaria os aparelhos. Esse fica pra outro post, logo mais.