terça-feira, setembro 27, 2016

Movendo

Eu tô com um negócio me pinicando pra eu escrever faz meses. E eu adiando. Resolvi que vou escrever quando vier, até sobre a folha que cai. É mais do mesmo, mas é meu e é melhor que o nada desconfortável que eu tenho feito.



Primeira vez que fui na Receita Federal, eu na verdade não fui. Era meio caminho para casa e eu precisava de um CPF, tinha 13 anos, por burocracias relativas ao inventário de meu pai. 
Digo que não fui porque não tinha acesso para cadeira de rodas, um prédio amarelo no Comércio, com uma enorme escadaria na porta. Minha mãe, minha representante à época, entrou lá e não me lembro bem, acho que arrumou outro lugar para fazer o que era preciso.
Corta o tempo para 2011 para cá. Eu sou meio que pau para toda obra no que diz respeito a assuntos familiares e eis que eu costumo ir muito na Receita Federal, resolver os famosos pepinos. Não sou nenhuma tributarista, aviso. Mas tenho um talento em resolver problemas, sabe como é, uma vida inteira de ter que pensar soluções. 
O prédio novo, não tão novo assim, já dá sinais de super lotação, é um lugar com vaga reservada na garagem, seguranças que indicam elevador, balcão em altura minimamente confortável. Eu consigo ir e dar conta do que tem que fazer.
Não é perfeito, já passei por situações de "patronizing", de falta de acessibilidade atitudinal, de me perguntarem cadê meu acompanhante mesmo eu mostrando minha OAB. É que as escadas as vezes se desmancham rápido, mas não os hábitos. 
Alguns funcionários tem um cuidado maior comigo, e não reclamo, desde que ouçam quando eu digo que consigo chegar. Ainda assim, eu entendo, o comportamento pode vir ordens, pode ser o treinamento recebido. E, de fato, muita gente vai lá sem qualquer orientação, é papel deles dar esse apoio. O pecar por excesso, num ambiente desse, é justificável.
Mas é bom saber que uns 15 anos depois da primeira vez que eu estive num prédio da Receita Federal eu não fico mais do lado de fora. Eu estou sendo peça no jogo, não apenas banco, na espera, na sombra da árvore. A sensação de que algo está sendo feito, em épocas tão desesperançosas que vivemos, é sempre boa. Já disse aqui, estamos nos movendo.
Ainda tem muitos prédios que eu não posso entrar. E que outras pessoas não podem entrar por outros motivos. Para além de tudo de ruim que isso nos causa, eu só espero que vocês saibam que estão perdendo bons resolvedores de pepino. 

sábado, julho 02, 2016

O que eu senti assistindo Procurando Dory

Primeiro de tudo eu preciso dizer que CONTÉM SPOILER. Ou eu me preocupo com não contar o filme ou com escrever sobre, desculpem. 
Como o título já sugere, esse post não tem uma intenção de estar certo, mas sim, de passar meu sentimento, como mulher com deficiência, sobre o que eu vi na mais nova animação da Pixar, "Procurando Dory".
Talvez eu não tivesse consciência da vontade que eu tinha de ver deficiência representada em filmes de criança quando eu era uma. Mas depois que a gente cresce e vai aprendendo a importância de coisas como representatividade, a gente passa a desejar fortemente que o tema seja tratado e para que seja da melhor forma possível. 
E Procurando Dory tratou bem. Claro que me incomoda o fato de que não são pessoas e sim peixes retratados com deficiência no filme, mas se foi preciso isso para tratarem do tema sem os clichês convencionais, então vamos lá, damos crédito, falemos de coisa boa.
Desde Procurando Nemo eu fiquei felizona de ver que Nemo tinha uma deficiência, além de Dory e sua deficiência intelectual ligada a memória. E de como Marlin era visto como bobão por ter sido extremamente super protetor, o que ocasionou toda a confusão do filme, escancarando uma realidade vivida pela maioria de nós. 
É um mundão inacessível e bem preconceituoso lá fora e pais não querem ver seus filhos, que a seus olhos parecem frágeis, tendo que enfrenta-lo, sem ajuda. Se já é assim para pessoas sem deficiência, se já é difícil alcançar a autonomia, você imagina para quem tem algo que "justificaria" uma proteção maior. 
Procurando Dory começa com Marlin seguindo a mesma pegada, não só querendo proteger Dory de se perder na aula, como temeroso de que ela atrapalhasse os outros alunos. Quantas pessoas com deficiência deixam de ir para escola, por temor dos pais de que elas não consigam dar conta? Ou tem suas matrículas negadas pelas instituições de ensino (mesmo ilegalmente) sob a justificativa que atrapalharia os outros? Mesmo assim, Dory vai, se escalando para ser assistente de professor, e é assim que começa a lembrar que teve uma família. 
Marlin é o cara bom pai, cheio das boas intenções, mas que dá umas mancadas capacitistas. Logo depois de partir em busca dos pais de Dory, a pedido dela, eles entram numa zona de perigo e numa discussão ele coloca sua lesão como um fardo. Magoada, ela sai e continua sua busca. 
O filme continua ganhando meu coração ainda mais, apresentando Hank, o polvo amputado. Ele consegue dar altos nós nos humanos, enquanto luta pelo seu sonho, que é ir pra Cleveland para nunca mais ver o mar aberto na vida. Não fizeram o personagem uma coisinha fraquinha e medrosa. Traumatizado, sim, mas sua deficiência não fica no centro, como na maioria dos filmes de "gente grande" que tem personagens com deficiência. 
Depois a gente conhece outra personagem legal, Destiny, amiga antiga de Dory, e quem a ensinou seu adorável baleiês. Destiny possui baixa visão e vive se batendo nas paredes do aquário onde vive e protagoniza uma das cenas que mais me marcaram. A hora que ela descobre que no mar não tem paredes, ou seja, é um ambiente acessível para ela. Quem falou melhor sobre conceito social de deficiência em um filme do que isso? 
Destiny mora ao lado de uma beluga, Bailey, que parece sofrer de dismorfia corporal. Ele acredita que sua cabeça tem uma deformidade e por isso ele não consegue usar sua ecolocalização ("os óculos mais poderosos do mundo"), quando na verdade é a maneira como todas as belugas no mundo se parecem. Também me tocou sobre a importância de um bom processo de reabilitação, inclusive no aspecto psicológico, para que a pessoa consiga viver da maneira mais saudável possível com seu corpo.
Tecnologia Assistiva também foi tratada de uma maneira sutil e perfeita. Os pais de Dory usavam conchas para indicar o caminho de volta para casa, caso ela se perdesse, permitindo que ela ficasse livre para brincar com os amigos, desde que ela seguisse o caminho das conchas de volta para casa, quebrando a lógica da super proteção e oferecendo autonomia para Dory criança.  
Nem tudo foi 100% no entanto, o personagem Geraldo, que também parecia ter uma deficiência intelectual, foi tratado de uma maneira ruim, servindo de motivo de chacota e sendo trapaçeado por outros personagens. 
Finalizando, a maneira como o jeito de funcionar de Dory foi ressignificado, fazendo parecer que não existe uma maneira correta para se estar na vida, foi evidenciado pela pergunta que Marlin se fez quando se viu em um beco sem saída: "O que Dory faria?". Sim, com sua lesão, Dory teve que conviver com uma maneira diversa de encarar as coisas, funcionar de seu jeito, com o que está a seu alcance. E é isso que nós, pessoas com deficiência, fazemos todos os dias. Ela não acorda chorando "aaah porque minha memóriaaaa", ela aprendeu a viver da maneira que pode e alcançou feitos tão maravilhosos que são dignos de um filme que faz a gente sair com aquele quentinho no coração de esperança do cinema.
EDIT: Esqueci de mencionar que amei no filme o fato de nenhum personagem com deficiência ser curado. Chega de filme que pro final ser feliz o personagem com deficiência tem que ser curado. 
O trailer para deixar vocês com ainda mais vontade:

quinta-feira, abril 14, 2016

Menos "a gente carrega" por favor

Aconteceu algo comigo hoje que sempre acontece, mas com uma especificidade que certamente me marcará para sempre. 
Minha professora cogitou a possibilidade de irmos para uma palestra que seria lá mesmo no FFCH, em São Lázaro, no lugar da aula. Confirmou com os alunos sobre o interesse, maioria concordou, eu inclusive. 
Acontece que mudaram o local, que estava reservado para ser em uma sala, no térreo, para outra que subiria 2 lances de escada. 
A professora, então, conversou com a turma e juntos concordaram que seria melhor manter a aula, já que aquela decisão de mudar para um local inacessível era completamente descabida, estariam cerceando meu direito de assistir à palestra.
Quando eu cheguei, atrasada, ela já tinha conversado com a turma e me informou do acontecido. 
O desfecho, afinal, havia sido o mesmo. A palestra ocorreu e eu não fui, fomos todos para aula normal. Foi mais uma palestra/evento em que eu não pude ir na minha vida. Mas dessa vez, algo foi diferente (não foi a primeira vez, mas sempre é importante). Além de mim, uma turma e uma professora ficaram do meu lado, deixaram de ir não só por minha causa, mas por acreditar ser o certo.
Para quem não conhece, São Lázaro gosta de se mostrar o campus da UFBA mais aberto à diversidade, menos normativo. Mas não é o que eu geralmente sinto na pele, tendo em vista sua quase completa falta de acessibilidade. Mesmo sendo avisados que eu, usuária de cadeira de rodas, estaria interessada na palestra, eles mudaram para um local inacessível. 
Quais outras minorias podem ser tão facilmente excluídas do espaço como a das pessoas com deficiência? Quando seria cabível, em São Lázaro, uma plaquinha escrita "nessa palestra não podem entrar homossexuais/negros/trans etc"? Mas quando se trata de excluir pessoa com deficiência, parece negociável, não raro, socialmente aceito. 
Ao final da aula, fui procurar entender melhor o que acontecera e agrader à professora por ter tomado essa atitude. 
Dessa vez o famigerado "a gente carrega" não prevaleceu. O "a gente carrega" muito ouvido por nós, cada vez que nos é negado acesso a prédios (públicos, vale ressaltar) que só reitera essa violência cheia de boa intenção contra quem tem deficiência. Aquela ajuda que não rompe com a opressão, de carregar alguém e coloca-la lá no espaço, sem qualquer autonomia, só para que não fique mal com sua consciência por ter sido tão excludente.
Ainda temos muito caminho a trilhar para se fazer presente em todos os lugares, mas considero que passos como o de hoje são mais importantes do que inúmeras cartilhas e cartas de intenção. Cabe a comunidade da UFBA agora refletir se está mesmo buscando a diversidade na universidade ou é só da boca para fora. Essa atitude me deu esperança de dias melhores, espero amanhã não me deparar com um carro estacionado na rampa. 

terça-feira, abril 05, 2016

Esse post não tem a intenção de convencer ninguém nem de trazer nenhuma lição de vida. Aliás, deus me livre, eu pretendo com ele justamente refletir sobre, inclusive, essa nova doença que nos aflige que é: "Venha para luz, perceba como estou certo."
Eu tenho sentido ultimamente que não podemos gostar de nada sem lançar mão de um discurso sobre "perceba como o que eu acho é melhor". Eu me incluo nessa e por isso, ressalto, esse post não serve para nada além disso, me ajudar a refletir.
Eu sempre escrevi para organizar ideias, clarea-las, coloca-las em uma perspectiva diferente. Só que atualmente, andamos escrevendo demais, postando demais, demonstrando demais. Refletindo de menos.
Por um lado, é excelente, você consegue mostrar para o outro perspectivas que ele não veria sozinho. Por outro, a gente não pode pisar na bola nas reflexões. Quantas vezes eu já escrevi e apaguei posts inteiros, que eu tava precisando colocar para fora, pelo medo de que minha reflexão fosse boba.
Perceba que aqui eu não defendo o direito de "escrever o que quiser", não faço ode ao "que saco o politicamente correto". Apenas estou trazendo minhas considerações sobre: não se pode mais titubear nas opiniões.
Atualmente, eu sinto que só podemos escrever sobre o que, para nós, é o correto e sedimentado. Que reflexões, dúvidas, não são lá muito bem vistas. Que se você perguntar, inocentemente, sobre algo na verdade você é inocente coisa nenhuma, você quer é desqualificar o coleguinha.
Então, não estou vendo muito sentido em andar pela internet. Longe de mim enaltecer o mundo exterior, eu sei que ele tem lá seus defeitos. Mas é que a internet deixou de ser um lugar de discussão para ser um lugar de exposição. Você expõe o que acha e é condenado a esse ou aquele lugar. Não adianta questionar, não adianta ficar lá e cá. E eu não sei, acho isso pouco humano. Eu sou um bolo de células e incoerência. Cês me desculpem, mas eu não tô conseguindo respirar nesse mundo online, não.

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Srta. Celofane


Os últimos dias tem sido agradavelmente agitados. Tenho sido produtiva não só com coisas para mim, mas também ajudando os outros. Esse carnaval encostado em janeiro me fez ter que correr, mas não de uma forma ruim. Meu estágio como mediadora, meu trabalho como psicoterapeuta, minhas aulas como aluna de psicologia e um programa de extensão sobre acessibilidade fluindo como esperado. Fora umas bobagens pendentes.
Uma das pendências foi meu passaporte, vencido há meses. Reúno documentos, pago GRU, agendo tudo. Para mim e para minha mãe. Eis que chega o dia e logo na entrada, na hora da recepcionista do SAC (Serviço de Atendimento ao Cidadão) checar meus  documentos para me mandar pro posto da Polícia Federal, eu tomo uma daquelas tijoladas disfarçadas de micro ofensa.
Eu em frente ao balcão, passei os documentos para ela, que olha para minha mãe e pergunta, apontando para mim:
-Quantos anos ela tem?
Acho difícil alguém não entender o quanto eu me senti ofendida aí, invisível, transparente feito papel celofane, mas vou explicar. Afinal, muitas vezes quando não dói na pele, distinguir ofensa dolosa de "não fiz por mal, me desculpe" é complicado. Por exemplo, uma pessoa que não precisa escolher a roupa que vai vestir na rua, para evitar ser assediada também tem dificuldade de entender que ouvir palavras obscenas de um estranho na rua não é cantada.
Eu já contei, nesse blog inclusive( aqui e de novo), como as pessoas me tratam como se eu não pudesse falar por mim mesma, por eu ter uma deficiência. Já aconteceu de recepcionista de clínica entregar minha ficha pra um estranho só porque ele tava sentado do meu lado e ela ACHOU que ele era meu acompanhante, afinal, eu não posso estar ali vivendo minha vida sozinha. Para a moça do SAC, eu não podia responder a minha idade. Ela não quis ter o cuidado de me olhar, talvez porque seja muito ofensiva minha presença diversa e perguntar algo que você pergunta a qualquer criança que você veja que já fala algo além de um "gugu dá dá".
Porque o mundo prefere supor que eu não posso falar sobre mim. E olha que eu posso dizer que tenho o privilégio da semelhança (muito bem dito por Fatine, no seu blog disbuga), não há nada que me faça parecer muito nova ou incapaz de falar por mim mesma, nenhuma deformidade importante, nenhum impedimento aparente, como uma traqueostomia, por exemplo. (Ainda que fosse esse o caso, não é assim que se aborda). As pessoas simplesmente supõem minha incapacidade, ainda que eu passe o dia dando provas do que eu posso fazer. Você imagine o que passa todos as pessoas com deficiência que tem alguma lesão que modifique a fala, que tenha um tamanho pequeno ou se utilize de alguma tecnologia assistiva para se comunicar?  Quantas dessas pessoas são diariamente silenciadas?
Eu vivo de lá pra cá, cuidando de pendências minha casa, de minha família, vendo meus amigos, indo para minha segunda faculdade, meu trabalho e porque não dizer, cuidando para que o mundo veja mais gente como eu por aí, ainda sou vista como um objeto estático incapaz de sequer se incomodar com alguém me ignorando. Imagine todos as pessoas com deficiência que estão por aí, sendo impedidas de sair de suas casas pela falta de acesso nas calçadas e transporte públicas, o quanto ficam invisíveis.
Ainda que na hora dê vontade de dar aquele barraco, bata o arrependimento por não ter feito e posteriormente tenha vontade de sumir para um lugar em que eu não precise mais passar por isso, eu venho aqui expor minha ferida.
Apenas porque, enquanto me silenciam de maneira tão mascarada, eu ainda tenho voz.
Vale finalizar dizendo que a moça não gostou muito da cara de espanto que fiz quando a indaguei:
- Você tá falando comigo? Porque eu tenho 28 anos. Você achou que eu tinha menos?
Afinal, que exagero meu se ofender, né? Ela não fez por mal, mulheres de 28 sem deficiência devem chegar lá e ouvir o mesmo tipo de pergunta sempre.
ENTÃO TÁ.