sábado, janeiro 21, 2012

Mas como é isso de se sentir deficiente?

Essa semana um assunto que brota, vez ou outra, me rondou um bocado e me deixou com vontade de escrever: Como é se sentir deficiente?
Quase como Gabriela de Caymmi, eu não nasci assim, mas eu cresci assim, eu sou mesmo assim e muito provavelmente, vou ser sempre assim: Pessoa com deficiência. Uso cadeira-de-rodas desde que me entendo por gente e acho que isso vocês já sabem. Eu não sei de ser de outro jeito, portanto, isso acaba sendo algo que não faz muita diferença na minha vida, psicologicamente falando. Não fico pensando "Ah, mas como seria se eu pudesse andar "como todo mundo"?", afinal, aprendi que não existe essa de "como todo mundo", tem mais gente diferente do que a gente consegue enxergar. Mas, sim, tem horas que não é nada bom ser como eu. O bicho pega, e até mesmo coisas cotidianas dão um nó na garganta.
Daí essa semana, os episódios das séries que eu ando acompanhando ultimamente, coincidentemente, tocaram nesse assunto.(Um spoilerzinho leve, não vai fazer mal, mas não custa eu avisar) Em "Glee", a personagem super espirituosa, líder de torcida, braço direito da vilã, portadora de síndrome de Down, Becky, após altas investidas para namorar Artie, é por ele dispensada e conclui, consigo mesma, ser devido a sua síndrome de down e pensa: "As vezes, é uma merda ser eu mesma." Na outra série, "Switched at Birth", o personagem surdo-mudo Emmet, é preso por vandalismo, meses após ele ter sido flagrado por câmeras de segurança pichando um outdoor que fizera como surpresa de aniversário para sua namorada não-surda, Bay. Acontece que no momento que os policiais chegaram a casa dele, jogaram o holofote em seu rosto, impedindo que ele conseguisse ver claramente os policiais para ler seus lábios e entender que o mandavam se identificar e largar a ferramenta que carregava, e assim ele foi jogado no chão e algemado, assim, impedido de se comunicar da única maneira que ele sabia: usando a Língua de Sinais. Ele confessa a uma amiga, mais tarde, que se sentiu como se afogando, que odiou ser surdo naquele momento e odiou mais ainda se sentir assim quanto a sua surdez.
E é aí que eu abraço Emmet e Becky e digo a eles que sei exatamente como eles se sentem quando não conseguem se acostumar com aquilo que eles passaram a vida mostrando, automaticamente, ser "ok". Sim, porque, para nós, passa a ser "ok" ser pessoa com deficiência. Vivemos, estudamos, trabalhamos, namoramos e tudo o mais com a deficiência a tira-colo. Não ficamos diariamente "Ih, olha eu hoje tendo que pedir ajuda para pentear meus cabelos por causa da minha deficiência". Não deixamos a deficiência de lado, quando fazemos todas essas coisas, por isso eu, pelo menos, aprendi a não odiar esse meu estado, renegando o que sou, maldizendo minha deficiência. Sou o que sou com ela, por causa dela, apesar dela, não importa.
Mas odiar se sentir deficiente acontece de vez em quando e, para mim, é mais doloroso do que qualquer dor que a deficiência possa causar. E, grande parte das vezes, advém de uma atitude errada de alguma pessoa que desrespeitou essa minha diferença, como no caso de Emmet e a truculência dos policiais, que não faziam idéia do motivo pelo qual ele se negava a obedecer a ordem de colocar a mão na cabeça. Por isso, rebato a tecla da necessidade de se agregar o que é diferente ao cotidiano das pessoas, de tornar as coisas mais fáceis, mais acessíveis. Como se já não bastasse as dificuldades inerentes à deficiência, ver algo deixando de ser acessível por pura falta de vontade, de bom senso ou de humanidade é algo que gasta a nossa energia, que poderia estar sendo poupada pra aqueles dias que não necessariamente é beleza ser quem eu sou. Não é todo dia, mas acontece.

domingo, janeiro 15, 2012

Helen conseguiu vencer o engarrafamento horrível e chegar ao salão de beleza, finalmente. Mal cumprimentou a todos, envolta nos pensamentos sobre o monte de coisa que tinha para resolver durante a semana. A reunião do novo projeto da chefe, com o qual ela super discordava, mas tinha que defender com unhas e dentes frente aos investidores. Unhas que estavam horrorosas, por sinal, tinha que entrar na fila da manicure, não ia dá pra só sair dali de cabelo cortado.
Helen não era daquelas que gostava de se embelezar, mas o fazia, muito bem até. Achava que era mais uma obrigação, que ela cumpria, obviamente. E aquelas revistas femininas espalhadas pelo salão? Argh. Com roupas lindíssimas, que quase nunca se acha na loja quando procuramos. Com cabelos perfeitos, que nem quando saímos dali alcançamos. Com pele que só pode ser photoshop de tão perfeita. Aliás, que coisa essa chata mais essa dúvida que surgiu sobre se há realmente pele perfeita, ou a gente pode se encher de porcaria que aquilo ali só se alcança em revista.
Chata, chata. Helen estava chata e o mundo, pra ela, pior.
As mulheres lindas da revista pareciam felizes, e uma psicóloga em uma das colunas dizia que era para ela - sim, ela sentiu a indireta - se desligar mais das coisas, relaxar, não deixar a ansiedade tomar conta, que o coração feminino é frágil e que pode acontecer o pior. Helen sentiu uma dor no peito e apertou o celular no colo. Como se fosse uma mão. Era seu elo com o mundo. Era assim que mais falava com os filhos, a mãe e lia sms das amigas confirmando um certo chá de cozinha. Como Helen podia resolver todos os problemas, tanta gente dependia e gostava dela, e não ficar ansiosa? E mais, ficar serena, continuar eficiente, e se manter linda, como as moças da revista. Ia abrir mão de ser bonita hoje, pronto. Sentiu uma culpa, o que o marido dela ia pensar, como a veriam na reunião? Ouviu Deise chamar.
Deise, a manicure. Helen a achou linda. Uma das mulheres mais lindas que já havia visto. Sorriso sincero, estendia a mão para Helen começar o procedimento. Gordinha, nenhum daqueles modelos da revista caberia nela. Nem se ela pudesse comprar. Não a gordinha estilo Adele, tão na moda atualmente. Negra. Cabelos presos. Covinha nas bochechas. Helen sentiu um alívio ao ver Deise e a achar mais bonita que a garota da capa da revista.

Esse post estava guardado aqui em meio aos rascunhos. Está sem terminar, mas publiquei assim mesmo pra sair do marasmo.