sábado, julho 02, 2016

O que eu senti assistindo Procurando Dory

Primeiro de tudo eu preciso dizer que CONTÉM SPOILER. Ou eu me preocupo com não contar o filme ou com escrever sobre, desculpem. 
Como o título já sugere, esse post não tem uma intenção de estar certo, mas sim, de passar meu sentimento, como mulher com deficiência, sobre o que eu vi na mais nova animação da Pixar, "Procurando Dory".
Talvez eu não tivesse consciência da vontade que eu tinha de ver deficiência representada em filmes de criança quando eu era uma. Mas depois que a gente cresce e vai aprendendo a importância de coisas como representatividade, a gente passa a desejar fortemente que o tema seja tratado e para que seja da melhor forma possível. 
E Procurando Dory tratou bem. Claro que me incomoda o fato de que não são pessoas e sim peixes retratados com deficiência no filme, mas se foi preciso isso para tratarem do tema sem os clichês convencionais, então vamos lá, damos crédito, falemos de coisa boa.
Desde Procurando Nemo eu fiquei felizona de ver que Nemo tinha uma deficiência, além de Dory e sua deficiência intelectual ligada a memória. E de como Marlin era visto como bobão por ter sido extremamente super protetor, o que ocasionou toda a confusão do filme, escancarando uma realidade vivida pela maioria de nós. 
É um mundão inacessível e bem preconceituoso lá fora e pais não querem ver seus filhos, que a seus olhos parecem frágeis, tendo que enfrenta-lo, sem ajuda. Se já é assim para pessoas sem deficiência, se já é difícil alcançar a autonomia, você imagina para quem tem algo que "justificaria" uma proteção maior. 
Procurando Dory começa com Marlin seguindo a mesma pegada, não só querendo proteger Dory de se perder na aula, como temeroso de que ela atrapalhasse os outros alunos. Quantas pessoas com deficiência deixam de ir para escola, por temor dos pais de que elas não consigam dar conta? Ou tem suas matrículas negadas pelas instituições de ensino (mesmo ilegalmente) sob a justificativa que atrapalharia os outros? Mesmo assim, Dory vai, se escalando para ser assistente de professor, e é assim que começa a lembrar que teve uma família. 
Marlin é o cara bom pai, cheio das boas intenções, mas que dá umas mancadas capacitistas. Logo depois de partir em busca dos pais de Dory, a pedido dela, eles entram numa zona de perigo e numa discussão ele coloca sua lesão como um fardo. Magoada, ela sai e continua sua busca. 
O filme continua ganhando meu coração ainda mais, apresentando Hank, o polvo amputado. Ele consegue dar altos nós nos humanos, enquanto luta pelo seu sonho, que é ir pra Cleveland para nunca mais ver o mar aberto na vida. Não fizeram o personagem uma coisinha fraquinha e medrosa. Traumatizado, sim, mas sua deficiência não fica no centro, como na maioria dos filmes de "gente grande" que tem personagens com deficiência. 
Depois a gente conhece outra personagem legal, Destiny, amiga antiga de Dory, e quem a ensinou seu adorável baleiês. Destiny possui baixa visão e vive se batendo nas paredes do aquário onde vive e protagoniza uma das cenas que mais me marcaram. A hora que ela descobre que no mar não tem paredes, ou seja, é um ambiente acessível para ela. Quem falou melhor sobre conceito social de deficiência em um filme do que isso? 
Destiny mora ao lado de uma beluga, Bailey, que parece sofrer de dismorfia corporal. Ele acredita que sua cabeça tem uma deformidade e por isso ele não consegue usar sua ecolocalização ("os óculos mais poderosos do mundo"), quando na verdade é a maneira como todas as belugas no mundo se parecem. Também me tocou sobre a importância de um bom processo de reabilitação, inclusive no aspecto psicológico, para que a pessoa consiga viver da maneira mais saudável possível com seu corpo.
Tecnologia Assistiva também foi tratada de uma maneira sutil e perfeita. Os pais de Dory usavam conchas para indicar o caminho de volta para casa, caso ela se perdesse, permitindo que ela ficasse livre para brincar com os amigos, desde que ela seguisse o caminho das conchas de volta para casa, quebrando a lógica da super proteção e oferecendo autonomia para Dory criança.  
Nem tudo foi 100% no entanto, o personagem Geraldo, que também parecia ter uma deficiência intelectual, foi tratado de uma maneira ruim, servindo de motivo de chacota e sendo trapaçeado por outros personagens. 
Finalizando, a maneira como o jeito de funcionar de Dory foi ressignificado, fazendo parecer que não existe uma maneira correta para se estar na vida, foi evidenciado pela pergunta que Marlin se fez quando se viu em um beco sem saída: "O que Dory faria?". Sim, com sua lesão, Dory teve que conviver com uma maneira diversa de encarar as coisas, funcionar de seu jeito, com o que está a seu alcance. E é isso que nós, pessoas com deficiência, fazemos todos os dias. Ela não acorda chorando "aaah porque minha memóriaaaa", ela aprendeu a viver da maneira que pode e alcançou feitos tão maravilhosos que são dignos de um filme que faz a gente sair com aquele quentinho no coração de esperança do cinema.
EDIT: Esqueci de mencionar que amei no filme o fato de nenhum personagem com deficiência ser curado. Chega de filme que pro final ser feliz o personagem com deficiência tem que ser curado. 
O trailer para deixar vocês com ainda mais vontade: