quinta-feira, abril 14, 2016

Menos "a gente carrega" por favor

Aconteceu algo comigo hoje que sempre acontece, mas com uma especificidade que certamente me marcará para sempre. 
Minha professora cogitou a possibilidade de irmos para uma palestra que seria lá mesmo no FFCH, em São Lázaro, no lugar da aula. Confirmou com os alunos sobre o interesse, maioria concordou, eu inclusive. 
Acontece que mudaram o local, que estava reservado para ser em uma sala, no térreo, para outra que subiria 2 lances de escada. 
A professora, então, conversou com a turma e juntos concordaram que seria melhor manter a aula, já que aquela decisão de mudar para um local inacessível era completamente descabida, estariam cerceando meu direito de assistir à palestra.
Quando eu cheguei, atrasada, ela já tinha conversado com a turma e me informou do acontecido. 
O desfecho, afinal, havia sido o mesmo. A palestra ocorreu e eu não fui, fomos todos para aula normal. Foi mais uma palestra/evento em que eu não pude ir na minha vida. Mas dessa vez, algo foi diferente (não foi a primeira vez, mas sempre é importante). Além de mim, uma turma e uma professora ficaram do meu lado, deixaram de ir não só por minha causa, mas por acreditar ser o certo.
Para quem não conhece, São Lázaro gosta de se mostrar o campus da UFBA mais aberto à diversidade, menos normativo. Mas não é o que eu geralmente sinto na pele, tendo em vista sua quase completa falta de acessibilidade. Mesmo sendo avisados que eu, usuária de cadeira de rodas, estaria interessada na palestra, eles mudaram para um local inacessível. 
Quais outras minorias podem ser tão facilmente excluídas do espaço como a das pessoas com deficiência? Quando seria cabível, em São Lázaro, uma plaquinha escrita "nessa palestra não podem entrar homossexuais/negros/trans etc"? Mas quando se trata de excluir pessoa com deficiência, parece negociável, não raro, socialmente aceito. 
Ao final da aula, fui procurar entender melhor o que acontecera e agrader à professora por ter tomado essa atitude. 
Dessa vez o famigerado "a gente carrega" não prevaleceu. O "a gente carrega" muito ouvido por nós, cada vez que nos é negado acesso a prédios (públicos, vale ressaltar) que só reitera essa violência cheia de boa intenção contra quem tem deficiência. Aquela ajuda que não rompe com a opressão, de carregar alguém e coloca-la lá no espaço, sem qualquer autonomia, só para que não fique mal com sua consciência por ter sido tão excludente.
Ainda temos muito caminho a trilhar para se fazer presente em todos os lugares, mas considero que passos como o de hoje são mais importantes do que inúmeras cartilhas e cartas de intenção. Cabe a comunidade da UFBA agora refletir se está mesmo buscando a diversidade na universidade ou é só da boca para fora. Essa atitude me deu esperança de dias melhores, espero amanhã não me deparar com um carro estacionado na rampa. 

terça-feira, abril 05, 2016

Esse post não tem a intenção de convencer ninguém nem de trazer nenhuma lição de vida. Aliás, deus me livre, eu pretendo com ele justamente refletir sobre, inclusive, essa nova doença que nos aflige que é: "Venha para luz, perceba como estou certo."
Eu tenho sentido ultimamente que não podemos gostar de nada sem lançar mão de um discurso sobre "perceba como o que eu acho é melhor". Eu me incluo nessa e por isso, ressalto, esse post não serve para nada além disso, me ajudar a refletir.
Eu sempre escrevi para organizar ideias, clarea-las, coloca-las em uma perspectiva diferente. Só que atualmente, andamos escrevendo demais, postando demais, demonstrando demais. Refletindo de menos.
Por um lado, é excelente, você consegue mostrar para o outro perspectivas que ele não veria sozinho. Por outro, a gente não pode pisar na bola nas reflexões. Quantas vezes eu já escrevi e apaguei posts inteiros, que eu tava precisando colocar para fora, pelo medo de que minha reflexão fosse boba.
Perceba que aqui eu não defendo o direito de "escrever o que quiser", não faço ode ao "que saco o politicamente correto". Apenas estou trazendo minhas considerações sobre: não se pode mais titubear nas opiniões.
Atualmente, eu sinto que só podemos escrever sobre o que, para nós, é o correto e sedimentado. Que reflexões, dúvidas, não são lá muito bem vistas. Que se você perguntar, inocentemente, sobre algo na verdade você é inocente coisa nenhuma, você quer é desqualificar o coleguinha.
Então, não estou vendo muito sentido em andar pela internet. Longe de mim enaltecer o mundo exterior, eu sei que ele tem lá seus defeitos. Mas é que a internet deixou de ser um lugar de discussão para ser um lugar de exposição. Você expõe o que acha e é condenado a esse ou aquele lugar. Não adianta questionar, não adianta ficar lá e cá. E eu não sei, acho isso pouco humano. Eu sou um bolo de células e incoerência. Cês me desculpem, mas eu não tô conseguindo respirar nesse mundo online, não.