segunda-feira, janeiro 26, 2015

Do tempo, da transição capilar, e do que sou.

"Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo"
Mas Mila é só um cabelo, diria alguns sobre minha transição de cabelos quimicamente alisados para os cachos. Não é. É voltar à adolescência e à época que eu não tinha noção de minha beleza, que eu mal tinha espelho, que eu não sabia me admirar. E amarra o cabelo, e esconde que ele "não é bom", e alisa com x, y e z. Reiterando que eu dependo do outro pra penteá-los e que eu preciso que as pessoas entendam o que eu quero e que nem sempre isso é possível. E que a transição, para quem não sabe, é basicamente esperar, muito, o cabelo natural crescer e ir retirando o antigo. Darei conta? Sendo essa decisão sobre cabelo só uma das coisas que vem aparecendo de outras épocas, para me testar.
A pergunta é: no que Mila de agora se assemelha com a de lá de trás e no que se diferencia? Porque se optou pelo caminho reverso é porque quer, no fundo, desconstruir e encontrar o que de lá de trás prende e chama, respectivamente. Pode parecer só um cabelo, as meninas cacheadas sabem que não é, mas além do que tem em comum com todas as outras que resolvem não mais alisar, tem o que é meu e essa reunião de fantasmas do natal passado que se enfileiram na minha porta querendo entrar.  De tudo, nascem perguntas tão incômodas quanto revigorantes: "Para que mesmo me serviram todos esses anos? O que mesmo me fez mais forte, para além do que dizem, reiteradamente, que sou? O que é necessário não temer repetir, posto que é morto? E o que ainda vive, não sem razão? O que de mim pode ser entregue ao acaso, que eu dou conta, que o tempo me entregou as ferramentas para lidar, não sem luta?"
Nenhuma das respostas, ainda. Só o tempo (engole seco) dirá.
( No vídeo, Bethania, seus cabelos tão cheios de significado, cantando Caetano e recitando Vinícius para me ajudar a digerir)

Um comentário:

  1. eu acho que o grande lance desse momento é reinventar-se. é buscar na raiz (rá!) a sua essência e aprimorá-la, agregando a ela tudo o que foi aprendizado nesses anos alisados. a praticidade vai ceder lugar à observação do tempo, à aceitação e assunção. vai ser um tempo de labuta, como um artista que esculpe - e vive - a sua obra. como todo processo em que se deposita energia, no fim você colherá os lindos frutos cacheados da sua persona. <3

    ResponderExcluir