quinta-feira, julho 14, 2011

Apnéia não mata, ensina a viver

Vá por mim. Você pode aprender coisas incríveis, simplesmente pelo fato de não estar respirando.
Desde os 8 meses de idade eu comecei a ter aulas de natação. Grande parte dos meus álbuns da infância toda tem algo a ver com água.
Depois então que descobri que tinha amiotrofia, aí que a água passou a ser minha vida. Eu achava que tava indo só para me divertir. Minha mãe e os demais médicos sabiam que era para me exercitar, me relaxar, melhorar minha coordenação, minha função pulmonar e mais um punhado de coisas.
Só uma coisa, eles não gostavam: É que eu adorava ficar em apnéia. Vários segundos lá embaixo sem respirar, mergulhando, rodando. Adorava aquela sensação de que, pelo menos por alguns segundos, eu era da água e só dela. Ali eu podia fazer tudo. Minha esperança era de que um dia nascessem brânquias em mim e eu tivesse que viver na água.
Minha mãe gritava de lá, morria de medo, dizia que aquilo podia me dar uma sensação de prazer, fazendo com que eu quisesse ficar mais tempo sem ar e daí perdesse a consciência, como acontecia com mergulhadores. Mostrou reportagem, fez de um tudo pra eu entender.
Até hoje, não há terapia melhor para mim do que ficar na piscina umas horas, fazendo séries de apnéia. Nesses intervalos submersos é só você, sem perturbações, sem estímulos externos, sem vozes. Você não precisa de nada, nem de ninguém.
Na apnéia, sinto conforto, posso me mexer com mais liberdade do que fora d'água, posso esquecer de tudo um pouco. Só me falta o mais importante de tudo: respirar. E é aí que eu aprendi.
Das milhões de coisas e pessoas que a gente se prende, não se pode dizer que, sem todas elas, nada seríamos. Do que realmente importa, a gente não se dissocia. E só saberemos disso, quando nos vermos tendo que abandonar o que a gente considerava difícil de viver sem. Ao longo da vida, por mais confortável que esteja a nossa, a gente vai abrindo mão dessas coisas em prol de algo que a gente considera maior, melhor. Por mais agradável que esteja a apnéia, é preciso vir à tona para respirar, porque viver é mais importante.
Muitas vezes, não escolhemos vir à tona, somos retirados da nossa confortável situação, sem que quiséssemos. Não importa: o dever de respirar nos foi imposto, e com isso devemos seguir. Por mais chato que seja ter que voltar à vida normal, o que interessa é que essa vida existe, com o suficiente para que possamos vivê-la.

4 comentários:

  1. Nossa,adorei este texto!
    E o titulo!!Quero este titulo pra mim!

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  2. Anônimo10:35 AM

    Fudendo, o texto.
    Também gosto dessa paz embaixo d´água.
    abraço

    Bono

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  3. Querida! Na verdade achamos que foi imposto. No fundo sabemos que foi escolhido por nós mesmos como escola. Amei esse texto! Assim como amo o blog.Você conseguiu voltar! Que tuuuudo! Falta apenas pensar que a paz embaixo da água não é da água nem pela água. A paz é sua e toda sua. Se você conseguir transportar para superficie isso vai se chamar MEDITAÇÃO. (Ou Autismo epende do grau! hahahahahahahaahahahah)

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  4. Cintia6:30 PM

    É bem isso aí.

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