quinta-feira, junho 03, 2010

Eu estava com fome e o mesmo esmalte na unha há mais de uma semana. Era uma necessidade fisiológica ir no supermercado pra comer e pintar as unhas. Não me julguem. Pelo menos, não faço xixi no meio da rua usando essa mesma desculpa.
Enfim, a fila pro restaurante a quilo do mercado estava imensa. Atrás de mim, uma adolescente com síndrome de Down, de nome Luzia, como a sua mãe repetia sempre na fila, de maneira carinhosa, indicando de que maneira se portar e se servir.
E atrás de Luzia, uma senhora de uns 50 anos. Eu, na minha cadeira-de-rodas, ocupo sempre um espaço grande nas filas de comida a quilo, como se fosse duas pessoas ao mesmo tempo. Luzia, um pouco devagar, fazia questão de se servir sozinha e não deixar nada cair, apesar da falta de coordenação. Uma fofa, educada e simpática. A senhora, no entanto, resmungava "que demora" "não tem ninguém pra ajudar o pessoal deficiente aqui, não?". E revirava olhos, como flagrei algumas vezes, enquanto meu Tio servia a mim e a ele, ao mesmo tempo.
Pagamos, sentamos. Coincidentemente, em mesas próximas umas das outras e bem longe do restaurante. Eu e meu Tio. Luzia e sua mãe. E a senhora, sozinha.

Tudo correndo bem, até que o garfo da senhora caiu. O que fazer agora, minha senhora? A mesa tá longe do restaurante, não dá pra abandonar seu prato sem supervisão, não é mesmo? Pegar do chão, nem pensar! Não tem garçonete para você pedir um favorzinho, educadamente. As únicas pessoas que podem te ver aqui sou eu e a família de Luzia. Mas você nem se atreve a nos encarar. Eu continuo comendo com meu Tio. Na outra mesa, Luzia, que ria contando histórias do colégio a mãe. Nunca de boca cheia, vale ressaltar. Você, querida senhora, teve que parar sua refeição, está sem talher. Quem está deficiente agora?

Pra quem ficou curioso, depois de resolver a necessidade mais urgente que era de comer, fui pintar minhas unhas. Um cinza lindo, pier da Impala. E a senhora? Voltou pra fila, ainda maior, segurando bem o garfo. Não queria arriscar ficar sem ninguém pra ajudar ela, em um eventual estado de "pessoal deficiente".

6 comentários:

  1. É comovente ver histórias assim Mila.Nos meus 30 dias vi isso,esse sentimento q as pessoas tem de acharem q só acontecem com o vizinho.E de limitarem o q não entendem...Quem é deficiente? Essa é a questão!

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  2. Mil, me orgulho muito de ter você em minha vida.
    Sério,no duro,cada segundo dos meus dias que eu lembro de você(e olha que são muitos!!Nem que seja 2 segundos em cada hora do meu dia eu lembro "poxa, tenho que falar com mil sobre isso!") me faz ter mas certeza disso.

    hehehe, este sou eu totalmente dependente de você!
    :)

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  3. É verdade, quem é o deficiente? Quem está sozinho? Quem é amado incondicionalmente? Quem sabe realmente o que ocorrerá no amanhã?

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  4. Obrigada pelos comentários, gente!
    Fico muito feliz de ter despertado as perguntas!
    =)

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  5. Do caralho, Mila.
    Sério.
    Verdadeiro, afiado.
    Escreva mais destes.

    grande abraço

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  6. Eu achei a senhora muito legal e gente boa, com certeza pelo fato dela ser assim tão bondosa é que ela estava sozinha.

    rsrs
    Blog massa, te sigo!

    Keep writing!

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