sexta-feira, julho 02, 2010

Sapatos

Diminuiu o passo ao avistar a loja. Não queria entrar lá assim soluçando de tanto chorar. Foi se recompondo enquanto se aproximava de sua loja de sapatos predileta. Não que pudesse chamar de sua. Nunca achou um bonito lá, que coubesse no seu pé.
Sem medo entrou na loja, afinal, nada parecia ser pior do que aquela vida que ela levava. Chata. Sem nenhum sapato legal pra lhe calçar. Sem nenhum alguém pra abraçar. Não, o terapeuta havia dito que aquela comparação entre homens e sapatos não era saudável, além de absurda. A melhor amiga havia avisado que aquela metáfora podia estourar o cartão de crédito dela e deixar tudo ainda pior.
Mas era assim que se sentia. Os sapatos, por ser seu pé tão pequenino, não cabiam nela. Assim como os homens, por mais legais que parecessem, acabavam não dando certo. Ora porque não mais a queriam, ora porque ela descobria defeitos que não se dava para perceber nos primeiros momentos em que ela passava experimentando, como aqueles cincos passos que se dá na loja antes de levar aquele sapato altíssimo. "Merda" pensou, já estava lá de novo às voltas com a comparação.
Enxugou as lágrimas e pediu, voz trêmula: "Traga todos os pares 33 que você tiver aí, porfavor."
As vendoras se entreolhavam. Detestavam ela, nunca levava nada. Nunca se conformou com o fato de que calça 32 e vive experimentando 33. Assim como sai pra paquerar, de segunda a segunda, vai até no batizado de cachorro, atrás daquele cara que seja seu número.
Mas, talvez, tenham se sensibilizado pelo seu nariz vermelho e seus olhos tristes. Trouxeram. Abriu algumas caixas, não tinha ânimo. A maioria, sandálias espartanas que ela detestava e que ela encontrava facilmente nas lojas infantis. Na mesma quantidade que ela encontrava caras babacas e infantis no dia-dia. Quis chorar mais.
Até que abriu a quinta caixa. Era ele. Um scarpin. De cetim, nude. Peeptoe com um detalhe na frente, lembrando uma jóia. Salto médio, suportável para a curvatura do seu pé diminuto. Acolchoado, leve. Salvo trabalhado. Como ela sempre sonhou.
Sorriu: "Vou levar". As vendedoras, meio com pena, como se consolassem uma viúva, mão de cinco filhos pequenos com um "seu marido está num lugar melhor", falaram: "Olha, esse não pode trocar depois pois está na liquidação. Mas acho que dá, né? Forma pequena. Tem certeza que não quer experimentar?"
Entre sorriso de prazer e alívio, disse: "Não. Vou levar assim mesmo". No fundo sabia, muito provavelmente não caberia. Sairia do pé quando ela estivesse entrando no carro ou algo assim. Mas ela estava encantada, por que não dizer, apaixonada. Então, entendeu. No dia que tivesse que ser, seria, assim como com os homens. Provavelmente, ele não seria do jeito que ela sonhara e a conquista, a relação, teria muitos percalços. Mas ela ia ter que se jogar. Os encantamentos valeriam a pena. Como tudo nessa vida, corria o risco de sair caro, não seria completamente racional. Mas a lógica das mulheres nunca está no lugar certo, mesmo. Provavelmente, está nos pés.
Mas tanto faz, ela pagaria a conta do cartão no final do mês, como sempre. E enxugaria suas lágrimas sozinha, se fosse preciso. Também como sempre.

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